segunda-feira, 6 de junho de 2016

GRUPO UNIÃO E BLOCO ÓKÁNBÍ

Assis et al (2010) também aponta a Associação Cultural Grupo União como um exemplo de luta, resistência e criatividade. A Associação desenvolve ações artístico-educativas com o propósito de valorizar as origens do bairro. E, nesta busca, surgiu o Ókánbi, fundado em 1982, e que introduziu a beleza do toque Ijexá no Carnaval da Bahia. Ele é conduzido pelo pesquisador musical, percussionista e arte-educador, Jorjão Bafafé.

O Bloco Ókanbi surgiu como afoxé, ganhou o concurso de Momo 83 da TV Itapoã, desfilando pela primeira vez no carnaval do mesmo ano. Depois disso ficou afastado do carnaval, para o reaparecimento em 1997, na lavagem do Porto da Barra, como afoxé alternativo e se transformando em bloco.

BEJE ERÓ: os ibejis do Ogunjá

Assis et al (2010) traz que Beje Eró, que em ioruba significa “chamar os dois”, é uma associação cultural situada na Vila Viver Melhor, no Vale do Ogunjá. O grupo surgiu da idealização de Rejane Maia, atriz do Bando de Teatro do Olodum, “a baiana do filme Ó pai ó”, moradora da Vila Viver Melhor e do arte-educador, Anativo Oliveira. 
Surgido da necessidade de ocupar crianças e adolescentes, retirando-os das ruas e tentando reduzir os riscos com a exploração do trabalho, uso de entorpecentes e prostituição, a associação realiza projetos de arte-educação por meio da dança, teatro, capoeira e percussão.

INSTITUTO PIERRE VERGER

Localizada na Ladeira da Vila América, via que liga o Engenho Velho de Brotas à Avenida Vasco da Gama, na mesma casa em que Pierre Verger viveu por anos, está a Fundação que lhe empresta o nome.
A Fundação foi criada em 1988, pelo próprio Verger. Após a morte de Verger, em 1996, a Fundação vem procurando dar continuidade à obra do fotógrafo e etnólogo. Além de um centro de informações e pesquisas, a Fundação oferece oficinas em diversas linguagens artísticas, como ação griô, artes plásticas, capoeira angola, dança afro, fotografia, percussão etc.
Em entrevista com Dona Nanci de Souza (Vovó Cici), 77 anos, uma senhora alegre e super agradável, que trabalhou com Verger cerca de 5 anos, legendando suas fotografias, ela acompanhou a trajetória do fotógrafo e de muitas personalidades que existiram no Engenho Velho de Brotas. O mestre de capoeira Bimba é uma delas. Ela já viajou para diversos países, desenvolvendo projetos nas respectivas universidades, com o objetivo de exaltar a cultura afro-brasileira, conta também que a Fundação tem 28 anos e o Espaço cultural tem apenas 10 anos. Atualmente desenvolve um belíssimo trabalho como Griô, que é o mesmo que contadora de histórias.  

Vovó Cici, como uma boa contadora de história, me conta  porque a ladeira da Vila América tem esse nome, pois no fim da ladeira havia um portão com uma plaquinha escrito "Vila América", daí o nome.

HISTÓRIAS DE VOVÓ CICI

 ENTREVISTA DE DONA CICI, DISPONÍVEL EM https://www.youtube.com/watch?v=TOsaiXn7EUA, PUBLICADA EM 2008.


Pierre Verger morou aqui em nosso bairro, mas nasceu na França em 1902. Fotógrafo e etnólogo autodidata, estudioso das relações da chamada diáspora-africana (comércio e dispersão da população africana escravizada pelas Américas), o comércio e dispersão da população africana escravizada pelas Américas, das religiões afro-derivadas e das intensas trocas culturais e econômicas com a África. Viajou o mundo todo, conheceu e documentou com sua câmera, uma máquina Rolleiflex, compondo um enorme acervo de imagens das mais variadas culturas. 
Esteve pela primeira vez na Bahia em 1946 e seus interesses de pesquisa o levaram a comprar anos mais tarde, em 1960, uma casa na Vila América, atraído pela quantidade de terreiros de candomblé da área. 
Em seus últimos anos de vida, a grande preocupação de Verger passou a ser disponibilizar as suas pesquisas a um número maior de pessoas e garantir a sobrevivência do seu acervo.

REFERÊNCIA

https://engenhoca.wordpress.com/historia/

CINE TEATRO SOLAR BOA VISTA


O Cine Teatro Solar Boa Vista (SOLAR) é um dos 17 Espaços Culturais administrados pela Fundação Cultural do Estado (FUNCEB), instituição vinculada à Secretaria de Cultura (SECULT).
Inaugurado em 06 de Julho de 1984 com o propósito de ser uma opção de cultura, lazer e entretenimento para a comunidade local. 

Atualmente promove diversas atividades culturais, como shows, teatros e apresentações. Conforme Assis et al (2010) a FUNCEB conveniou-se ao Ministério da Cultura (MinC), em 2005, tornando o Cine Teatro Solar Boa Vista um Ponto de Cultura, com a proposta de oferecer oficinas de formação artística e de qualificação para outros profissionais atuantes na área cultural. Pelas 61 oficinas que já aconteceram no Ponto de Cultura passaram mais de 850 pessoas e cerca de 1600 espectadores já assistiram às mostras dos resultados.

O Ponto de Cultura do Cine Teatro Solar Boa Vista contribui com o entorno possibilitando não apenas a capacitação, mas também o fortalecimento da identidade cultural, valorização da produção cultural local, elevação da auto-estima, geração de renda e troca de saberes e fazeres entre artistas locais e artistas de outras regiões.

GRID – Grêmio de Integração de Deficientes



O GRID – Grêmio de Integração de Deficientes é uma instituição filantrópica, sem fins lucrativos que foi fundada em 1986 no instituto de reabilitação, por um grupo de pacientes e funcionários, com o intuito de promover a inclusão social entre seus associados e familiares.
A partir de 1998 o GRID passou a desenvolver atividades na área cultural, social e esportiva voltada para comunidade do Engenho Velho de Brotas, para pessoas em situação de risco ou sem perspectivas sociais. Através das ações desenvolvidas pelo GRID gerou uma parceria com a comunidade beneficiando crianças, adolescentes e adultos, estimulando o cooperativismo e associativismo entre beneficiados, se firmando como ponto de cultura.
Para manter a sua atividade fim, a instituição oferece diversos serviços à comunidade que propiciam a sua viabilidade econômica. Os recursos arrecadados com os serviços são revertidos para o atendimento à pessoa deficiente carente.
Na sua estrutura o GRID mantém o Bazar Voluntário, um espaço para desenvolver cursos voltados para capacitação da comunidade do bairro, além do trabalho realizado no CAPS ARISTIDES NOVIS que presta assistência aos deficientes mentais.
Atualmente, a presidenta é Ana Lúcia Cândida, conhecida carinhosamente por tia Ana, uma pessoa linda, iluminada, que por acreditar no trabalho realizado ao longo desses 30 anos, não abandona o barco.
Digo isso porque hoje o GRID passa por uma situação complicada, sem recursos e apoio de nenhuma entidade governamental, o ponto de cultura vem desenvolvendo também com a comunidade para mantê-la firme no seu propósito, atividades como rodas de orações, que abraça a todos, independente de religião.
Mas as atividades culturais não pararam! Em março revitalizamos a horta do CAPS que pela questão do tempo que as atividades estavam paradas, ficou sem manutenção. 
E estamos divulgando neste mês de Junho Evento “Boca de Brasa”, este evento oferece diversas oficinas gratuitas de 13 a 18/06 e será realizado na Escola Municipal Martagão Gesteira, Rua Almirante Alves Camara, mas amanhã (08/06, às 18:30 h) acontecerá um Encontro de Articulação para o Plano Municipal de Cultura.

Neste ano, através destas pesquisas, passei a ser a mais nova integrante do GRID, doando na medida do possível parte do meu tempo livre, assim, em nossas rodas de orações, realizamos palestras que trazem conhecimento e reforçam ações de cidadania. 

PONTOS DE CULTURA

Hoje nosso bairro conta com uma série de pontos de cultura, são instituições educacionais, culturais, sociais, religiosas e esportivas que tentam de algum modo preservar a história do nosso bairro, promovendo também o resgate de nossa identidade, o envolvendo dos moradores, retomando assim o sentimento de pertencimento que ao longo do tempo foi se perdendo com tanta modernidade.
Assis et al (2010) aponta que em comum, essas instituições possuem o anseio por um bairro com menos problemas sociais, com menos violência, menos lixo e menos poluição sonora.
Em 2010 foi publicado um material intitulado “Memórias do Engenho”, material este de onde trago muitas informações para este Blog, ou seja, utilizo-o como fonte de pesquisa. Na época, habia um Projeto chamado Engenho em Moviemnto, onde as principais pautas eram: a revitalização do Parque Solar Boa Vista e a criação do Conselho Local de Segurança.
Para chamar a atenção da comunidade, da imprensa e das autoridades, na chegada da primavera, o coletivo colore o Engenho Velho, levou para as ruas mais de 2000 pessoas, principalmente as crianças das escolas do bairro.
Dentre as instituições que aderiram ao Engenho em Movimento, destacam-se: Associação de Samba Duro, Associação Santa Luzia, Cine-Teatro Solar Boa Vista, Escola Jardim da Acácias, Escola Ninos e Ninas, Escola Municipal Landulfo Alves, Escola Municipal João XXIII, Escola Municipal Martagão Gesteira, Espaço Cultural Pierre Verger, GRID, Grupo União, Programa 2º Tempo – Núcleo de Esportes, Ronda Escolar, SIGA V – Brotas, 26ª CIPM.

Bom, esta pauta permanece até hoje, uma vez que a situação piorou em janeiro de 2013, ano em que o casarão onde funcionava a Secretaria Municipal de Educação (SMED) incendiou. De lá pra cá, o casarão foi evacuado e no início deste ano foi cercado com uma espécie de tapume de alumínio, lembrando telhas de flanges.

AS AGREMIAÇÕES CARNAVALESCAS: HERANÇA CULTURAL!

Muitas eram as agremiações carnavalescas que alegravam nosso bairro, alguns ainda existem, outros não mais e é algo que percebi conversando com os moradores um sentimento saudosista.
                       
Dona Lúzia, 80 anos, conta que era muito bom, porque eles não precisavam se deslocar. “Todo mundo alegre, brincando, tinha os pierrôs, que era os meninos tudo fantasiado.”
Dona Celimar, mais conhecida por Dona Celi, 81 anos, conta a mesma coisa. “O bom era que não precisava sair, mas eu só ficava olhando eles passarem pela rua.”
E quais eram essas agremiações carnavalescas?
Tinha os Afoxés, um afoxé, segundo Lody (1976) é como um “candomblé de rua”, por trazer de dentro dos terreiros de candomblé para as ruas o ritmo ijexá e trazer nos seus cortejos rituais pertencentes ao culto aos Orixás das casas de candomblé.
Amorim (2011) traz que um Afoxé também é o nome de um instrumento de origem africana, um instrumento musical idiofônico, um tipo de xequerê, feito de cabaça coberta com uma rede de conchas, contas ou sementes.
Um afoxé muito conhecido em nosso bairro é o afoxé Badauê que foi criado em nosso bairro em 13 de maio de 1978 por um grupo de jovens ativistas culturais que se auto denominavam grupo jovem louco pelo fato de seus ensaios acontecerem perto de um hospital psiquiátrico, Moa do Katendê foi um dos fundadores. Esse afoxé saiu no carnaval de Salvador pela primeira vez em 1979.
Conforme Amorim (2011), ao entrevistar Moa do Katendê, este conta que o Badauê fazia o seguinte circuito:
(...)a gente saia da curva da ladeira de Nana que é a área da gente mesmo e ganhava o bairro todo até o fim de linha ali a gente se despedia do circuito, desfile da gente no bairro e íamos para a cidade para desfilar na cidade. Teve momentos de a gente sair no Campo Grande como teve momentos de a gente sair da Ladeira da praça, subir e ganhar a praça municipal e seguir para o Campo Grande, então fizemos dois percursos, durante meu tempo em 79,80,81,82,83,84, seis anos ele fez este percurso no carnaval, depois ele segui com outras pessoas aí que continuaram. (Moa do Katendê entrevista em 7/5/2009)

Assis et al (2010) traz que o acompanhamento de ensaios levou os cantores e compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, o escritor Antônio Risério e o etnólogo Pierre Verger a dedicarem parte de seus trabalhos ao Badauê.
Alburqueque (2002) coloca que além dos Afoxés tínhamos também os antigos clubes negros Embaixada Africana e Pândegos D'África que surgiram em 1895 e 1900, respectivamente, e tinha entre seus fundadores negros mais abastados.

Estas agremiações segundo Amorim (2011) eram chamadas por Nina Rodrigues de Afoxés, mas não se caracterizavam como tal, pois não faziam parte de comunidades religiosas africanas e apenas usavam instrumentos característicos de afoxés como atabaques e agogôs.

REFERÊNCIA
AMORIM, Antonio Sergio Brito de. Memória e identidade musical no engenho velho de brotas. XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais. Diversidades e (Des)igualdades. Universidade do Federal da Bahia (UFBA) – PAF I e II, Campus de Ondina, Salvador, 2011. Disponível em: <http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1307580179_ARQUIVO_CONLABANTONIOSERGIOBRITODEAMORIM.pdf> [ACESSO EM 27/02/2016].

Engenho das Memórias. Organização: Márcio Nicory (Professor da Oficina de Pesquisa e Memória do Ponto  de Cultura) | Pesquisa e textos: Chicco Assis, Márcio Nicory e agentes de pesquisa da oficina de Pesquisa e Memória – Adriana Régis, Andréa Betânia da Silva, Ednéia Rodrigues, Leila Leal, Mauro Góis | Imagens: Oficina de Pesquisa e Memória, Acervo do Memorial Juliano Moreira, do GRID e do Grupo Badauê | Revisão e seleção de imagens: André Araújo e  Viviane Andrade | Projeto gráfico, diagramação e ilustração: Aline Cruz | Impressão: EGBA |Disponível em: <https://ascomfunceb.files.wordpress.com/2010/10/2010-o-engenho-das-memorias-cine-teatro-solar-boa-vista.pdf> [Acesso em 28/02/20016].